Odisseu na epopeia de um mundo abandonado por Deus: uma leitura da Odisseia de Christopher Nolan

Isabela Padilha Papke

7/30/20266 min read

Antes de qualquer juízo, peço licença para invocar Homero. Não para reivindicar a autoridade do texto fundador, tampouco para transformar esta leitura em um tribunal da fidelidade, mas porque me parece impossível iniciar qualquer reflexão sobre a Odisseia sem antes ouvir o eco de seus versos inaugurais:

“Canta, ó musa, a história desse filme multifacetado, que padeceu depois de arrasar uma tradição crítica, relutante em reconhecer que toda adaptação constitui uma obra autônoma da original.”

Brinco aqui, com a evidente releitura dos versos, como modo de dizer que, há muito tempo, esses versos deixaram de pertencer apenas ao poema. Eles inauguram uma tradição, convocam uma memória e anunciam que toda nova travessia de Odisseu começa, inevitavelmente, por um canto. A minha, com esse filme, contudo, começou de outro modo: com uma escolha.

Depois de ler inúmeras críticas que insistiam em avaliar o filme a partir daquilo que ele preservava ou traía em relação ao poema homérico, decidi fazer um exercício de suspensão. Escolhi entrar na sala de cinema sem exigir da adaptação aquilo que ela jamais prometeu ser. Por algumas horas, procurei silenciar a pesquisadora, a doutora em Letras que já percorreu as múltiplas veredas da Odisseia, para permitir que permanecesse apenas a espectadora, aberta à experiência estética de uma obra que, embora nascida de Homero, pertence a outra linguagem e, por isso mesmo, constitui uma criação autônoma.

Esse gesto não significou esquecer o poema, mas reconhecê-lo justamente onde ele continua mais vivo: na capacidade de gerar novas narrativas, novos olhares e novas formas de contar a mesma viagem. É a partir dessa disposição que convido a musa a cantar, não apenas a história de Odisseu, mas também a história de um filme que ousou navegar por mares próprios.

Foi sob essa perspectiva que escolhi assistir ao filme de Christopher Nolan. Não o compreendi apenas como uma adaptação da Odisseia, mas como uma obra de recepção do poema homérico. Interessa-me menos perguntar o quanto o diretor foi fiel ao texto de origem do que compreender de que maneira ele o leu, o interpretou e o traduziu para a linguagem cinematográfica. Afinal, toda adaptação é, antes de tudo, uma leitura.

Mais do que transpor um enredo para outra mídia, Nolan apropria-se de uma narrativa milenar para recriá-la segundo sua própria sensibilidade estética e artística. Seu filme não pretende substituir Homero, tampouco ilustrá-lo; procura dialogar com ele. É nesse movimento de interpretação, reinvenção e criação que reside seu maior valor: não como cópia de uma obra consagrada, mas como uma nova obra de arte, autônoma, capaz de estabelecer com o poema uma relação de continuidade e, ao mesmo tempo, de renovação.

Comecei a compreender a obra de Nolan por meio de seu protagonista: Odisseu. Nele permanecem a astúcia, a honra, a disciplina e a liderança que definem o herói homérico. No entanto, algo me chamava a atenção: seu ceticismo, sua inquietação e o conflito constante que atravessa sua jornada. Mais do que o herói da epopeia, via diante de mim um homem moderno, marcado pela dúvida, pela culpa e pelo peso de suas próprias escolhas.

Foi impossível não lembrar de Lukács. Em A teoria do romance, o crítico descreve o homem moderno como o protagonista de um mundo abandonado por Deus, distante da totalidade que sustentava a epopeia. Foi então que compreendi o projeto de Nolan. Sua Odisseia não abandona Homero; ela o relê a partir da sensibilidade contemporânea, transformando a viagem de Odisseu em uma travessia menos guiada pelos deuses e mais determinada pela consciência humana.

Existe, no longa, um projeto interpretativo muito evidente, que se ergue pela figura de Odisseu. Com o fim da Guerra de Troia, encerra-se também uma determinada concepção de mundo. Não é apenas uma guerra que termina, mas uma ordem simbólica. A sociedade que emerge dos escombros já não se orienta pela certeza de um destino previamente traçado pelos deuses. Em seu lugar, instala-se um mundo em que a barbárie é produzida pelos próprios homens e em que as consequências da violência recaem, inevitavelmente, sobre aqueles que a praticaram.

Nesse sentido, Nolan desloca o eixo moral da narrativa. A responsabilidade pela destruição de Troia não é atribuída à vontade divina, tampouco às intrigas dos deuses, mas às paixões humanas: à ambição, ao desejo, ao orgulho e à sede de poder. A guerra nasce das escolhas dos homens e termina deixando-lhes como herança a culpa, o trauma e a memória de suas crueldades e à mercê de suas naturezas vis. A balança da justiça, em sua leitura da Odisseia, pertence aos homens.

Nolan faz isso reduzindo, de modo drástico, a intervenção dos deuses na narrativa, praticamente dessacralizando o texto homérico e o reinscrevendo em uma sensibilidade profundamente moderna. Sua Odisseia deixa de ser, primordialmente, a história de homens conduzidos pelos desígnios do Olimpo para tornar-se a história de homens confrontados com as consequências de suas próprias escolhas. O centro da narrativa já não é o destino imposto pelos deuses, mas a responsabilidade humana diante da história que ela mesma produz.

Ao invés de buscar uma transposição fiel da tradição épica, o diretor propõe uma releitura que dialoga com questões e inquietações mais próximas do mundo atual. Assume, deste modo, uma perspectiva essencialmente moderna, que rompe com estruturas tradicionais do épico, para construir sua obra cinematográfica. Trata-se de uma escolha artística legítima que, como toda interpretação, privilegia determinadas dimensões do texto original em detrimento de outras.

É justamente esse deslocamento de perspectiva que provoca o desconforto dos leitores mais vinculados à tradição, para os quais a força da obra homérica está associada à preservação de seus valores e de sua estrutura original.

Minha leitura, contudo, parte de outra premissa. Compreendo que a Odisseia, em sua forma original, estabelece tensões com muitas das formas de pensar do mundo contemporâneo. Por isso, considero que sua permanência não depende de uma reprodução fiel, mas da capacidade de ser constantemente reinterpretada. É precisamente a fricção entre a evocação da tradição e a ruptura com alguns de seus pressupostos que mantém os textos da Antiguidade vivos, permitindo que continuem a suscitar debates e a produzir novos sentidos em diferentes contextos históricos.

Enquanto alguém profundamente apaixonada pelo poema homérico, quando tenho o desejo de reencontrar a grandiosidade da Odisseia, volto às páginas de Homero. Não espero que o cinema reproduza, com absoluta fidelidade, o mar que apenas ele foi capaz de criar.

Ao assistir a uma adaptação, prefiro imaginar o diretor no mesmo lugar em que estive tantas vezes: diante de um grande livro, lendo, interpretando e tentando compreender seus sentidos a partir de sua própria visão de mundo. Christopher Nolan é, antes de tudo, mais um leitor da Odisseia. Seu filme é a materialização dessa leitura.

E talvez seja justamente por isso que sua obra já se justifique. Não porque substitua Homero, nem porque pretenda ser sua tradução definitiva, mas porque acrescenta uma nova interpretação a um clássico que nunca deixou de ser lido. Se hoje discutimos sua visão, concordando ou discordando dela, é porque a Odisseia continua viva. Afinal, poucas formas de eternizar uma obra são tão poderosas quanto mantê-la permanentemente aberta ao debate.

Isabela Padilha Papke (UFRGS)

Doutora na área de Estudos Literários pelo Programa de Pós Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mestra em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Licenciada em Letras na mesma instituição. É membra dos Grupos de Estudos em História e Literatura (GEHISLIT/ PUC Minas), Literatura e Ditaduras (GELD/ PUC-SP) e dos Grupos de pesquisa ''Saramago, Leitor de Karl Marx'', da PUC MINAS, e ''José Saramago: Ensaio sobre a Humanidade'' da FURG .

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