"De onde eles vêm" (2024), de Jeferson Tenório
Lucecleia Francisco da Silva
1/28/20262 min read
De onde eles vêm (2024), de Jeferson Tenório, foi meu primeiro livro lido em 2026. Acompanha a trajetória de Joaquim a partir de relações afetivas e de uma aposta persistente na literatura como forma de compreensão de si e do mundo. É no campo dessas relações que o romance explicita algumas assimetrias. A ligação entre Joaquim e Jéssica, embora nomeada por ele como “a mulher da sua vida”, é apresentada de modo lacunar, marcada por um intervalo que fragiliza tal afirmação. Em contraste, a relação com Elisa, mulher branca, recebe um tratamento mais detalhado, com descrições extensas e maior investimento textual, produzindo um desnível evidente na elaboração dessas duas experiências afetivas.
Joaquim, enquanto personagem principal, me transmitiu em vários momentos uma postura de autocomiseração, como se seus conflitos internos girassem mais em torno da culpa e da hesitação do que de um enfrentamento direto das condições que o cercam. As cenas de sexo, embora possam ser compreendidas como parte desse percurso, me pareceram por vezes excessivas e levantaram a dúvida sobre sua real necessidade para o desenvolvimento do romance, talvez por uma resistência minha como leitora, talvez por um excesso do próprio texto.
O diálogo com Sinval, quando Joaquim comenta o conto que pretende inscrever em um prêmio, condensa uma reflexão: a literatura surge como meio de afirmar a experiência da vida e a consciência da finitude. Em outro momento, o narrador afirma ter acreditado que os livros poderiam salvá-lo, para depois reconhecer que tornar-se leitor implica um permanente desacordo com o mundo, uma impossibilidade de conciliação plena com a realidade.
A morte comparece como um fundo constante na trajetória de Joaquim, em diálogo com Consoada (1952), de Manuel Bandeira. No poema, a morte se apresenta como algo anunciado, esperado, quase familiar; no romance, essa mesma tonalidade acompanha o sujeito ao longo da vida e orienta sua percepção do tempo e de si.
Permanece a pergunta se Joaquim é ingênuo ou se sua trajetória resulta de sucessivas interrupções de possibilidade, associadas à dificuldade recorrente de confiar em si mesmo. O romance se encerra sem oferecer soluções fáceis, com uma afirmação contida, quase silenciosa, que altera o tom do desencanto para algo mais simples e direto. Apesar de tudo, a vida segue. Como se lê na última página, a vida é boa. A força do livro reside no percurso que se desenvolve ao longo do texto, nos conflitos apresentados e nas questões que permanecem em aberto, exigindo do leitor um posicionamento crítico diante das escolhas do personagem e das condições que orientam sua experiência.






Lucecleia Francisco da Silva (UFES)
Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), na linha de pesquisa Educação e Linguagens. Atua como Professora de Assessoramento Pedagógico e docente nas Séries Iniciais na Prefeitura Municipal da Serra (ES). Tem experiência na área da Educação, com ênfase em prática de ensino, literatura, formação de leitores e inclusão escolar.


